O rei do pop e eu!

Eu me surpreendo com a minha incapacidade de lidar com a morte. E sinceramente, a pessoa que morreu não precisa ser da minha família, não preciso conhecê-la, aliás, ela não precisa existir. Assistindo a filmes me arraso de tanto chorar quando alguém morre, e não só alguém pessoa, alguém animal também, chorei com a morte do Marley, e também de uma aranha, animal que morro de medo, no filme a Menina e o Porquinho.

O incomum aconteceu essa semana, Michael Jackson morreu. O rei do pop, uma estrela que influenciou a música, a dança, o mercado do entretenimento, uma figura que fez história, mas que não me fez chorar. Sim, eu não chorei com a morte do Michael. E posso garantir que sua música sempre esteve presente em minha vida.

Hoje quando não agüentava mais ver nada na mídia relacionada a morte dele, me deparei com uma reportagem da Record. Curiosa, pois nela havia uma distinta entrevista com o cantor, dediquei minha total atenção ao que àquela pessoa, alvo de tantas críticas, julgamentos, e também elogios, tinha a dizer.

Fiquei chocada. Muito chocada. Não com o fato de ele ter sofrido abuso do pai quando criança. Não com o fato de ele ter sido obrigado a ser adulto quando tinha menos de 10 anos. Não pelos peculiares relacionamentos amorosos, ou escândalos relacionados a pedofilia que cercaram sua trajetória. Isso tudo eu sempre soube, e você também, afinal a mídia esta aí, certo?

Estou chocada como nós, comunicadores, imprensa, mídia, somos uns monstros, somos pessoas monstros e não empresas. É muito fácil esconder nossas atitudes por trás do nome de um veículo de comunicação, culpar nossos chefes e a cobrança financeira que o mundo capitalista e globalizado nos impõe dia após dia. Somos nós os culpados, é, nós mesmos.

Somos aqueles que têm o poder da palavra com projeção, que dominamos técnicas de persuasão, argumentação, de arrancar do outro aquilo que não podemos falar. Somos aqueles que colocamos você nas alturas, te iluminamos, te enriquecemos, mas em contrapartida, queremos enriquecer as custas da sua felicidade, do seu bem estar, da sua vida.

Não somos máquinas, não somos o dinheiro, somos pessoas vendidas para um mundo onde a atenção prevalece mais do que tudo. Queremos ser vistos e escutados, queremos ser notados, e para isso usamos o seu sofrimento, e causamos mais dor.

É incrível o que a mídia fez com o Michael, com a Diana, com a Dona Francisca da vendinha da Tijuca, que teve problemas de drogas com seu filho. Alimentamos-nos do sucesso e fracasso alheio, não temos escrúpulos, ética, não temos respeito com o próximo.

A pessoa que desenvolveu o projeto de lei que considera todas as pessoas comunicadoras, não sendo necessária uma graduação, ou especialização para exercer a profissão de comunicador, pode até ter razão.

Somos todos donos da palavra, e somos livres para usá-la como bem entendemos. Somos livres para julgar, condenar, inventar, banalizar, “sensacionalizar”, causar transtornos psicológicos.

Meu Deus, nós somos humanos, pessoas, e somos incapazes de respeitar a individualidade de cada um, somos incapazes de entender e não se intrometer, queremos para nós um pouco do outro, não importando se isso esta o diminuindo como pessoa ou não.

As vendas de discos do cantor aumentaram depois da sua morte. E de que vale o dinheiro para ele agora? As empresas de comunicação estão lucrando há quatro dias em cima da espetacularização da morte dele, assim como foi no caso da Air France, e dos Mamonas Assassinas, e da enchente em Santa Catarina. No final da reportagem eu chorei, de soluçar, inconformada com a nossa falta de humanização. Inconformada com as nossas atitudes, com a nossa capacidade de achar que temos poder para decidir sobre o outro. Pela primeira vez em quatro dias chorei a morte do ídolo do pop. Chorei, pois nada adianta eu estudar filósofos e leis, não adianta entender o que passou se no presente tenho feito tudo errado, eu você e ele. Todos nós.

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Um pensamento sobre “O rei do pop e eu!

  1. Essa foi sensacional!
    Você precisa mesmo exercitar sua veia jornalistica!
    Adorei, vc manda muito bem!
    Vou levar um filmaço para você assistir, faz uma critica pra mim?
    beijokas

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