A hora de parar

Uma vez, quando eu era pequena, tinha menos de dez anos, eu fui a um parque de diversões com a minha irmã, a minha mãe, e acho que com mais dois tios também.

Eu sempre fui medrosa. Tinha medo de água, e dos brinquedos de gente grande. Só me sentia segura no carrossel. O minhocão era a minha maior aventura.

Minha irmã era o oposto. Adorava uma adrenalina. Entrava na piscina funda. No parque só queria saber do Kamikaze, do Samba e também das enormes montanhas russas. Sem contar a casa dos horrores, que ela amava.

Nesse dia eu estava com uma peculiar coragem e pedi a minha mãe que fosse comigo na montanha russa. A vontade de entrar nela era maior que o pavor que eu sentia. Meus familiares nem puderam acreditar, mas sim, eu estava disposta a enfrentar aquele monstro da velocidade.

Mas, quando o carrinho começou a subir eu tive os mais diversos sintomas do desespero. Coração acelerado, enjôo, pânico. Sim, eu estava em pânico. E confesso ter a sensação que com a descida do mesmo, em alta velocidade, eu certamente morreria.

Ao olhar aqueles ferros eu tinha a nítida impressão que o carrinho despencaria lá de cima antes mesmo de chegar ao seu destino. Na minha mente, ficar de cabeça para baixo era uma experiência super mortal.

E foi quando eu desesperada pedi a minha mãe que nós fossemos embora. Eu desistira de viver aquela emoção. Preferia ficar em terra, onde eu tinha certeza que permaneceria com vida.

Eu tive que parar. Eu precisava desistir daquilo, afinal não estava preparada para lidar com os riscos e com as conseqüências. Eu precisava descer daquele carrinho antes de terminar a jornada. E não me arrependi de ter feito isso.

Na vida tem horas que tudo vai acontecendo muito rápido. Parece uma montanha russa. E por mais que pareça estranho ou covardia, por mais que pareça um fracasso, é preciso parar.

Parar para se recompor. Parar para começar do zero. Parar para se organizar. Simplesmente é necessário desacelerar e parar.

Hoje vou a quantas montanhas russas eu quiser. Entro na casa dos horrores. Me arrisco quando sinto que posso me arriscar. Mas eu precisei respeitar o meu tempo para superar esses medos, essas angústias.

A vida parece um parque de diversões quando apresenta os seus desafios. Nós sabemos que podemos brincar em qualquer brinquedo. Mas também precisamos ter ciência que tudo tem o seu tempo e que a velocidade das emoções e das experiências pode nos saturar. É preciso saber a hora de parar, zerar o jogo e começar de novo.

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Respeito

Naquele momento nada importava. Ela estava diante dele perplexa, em choque. Não conseguia pensar em mais nada, a não ser que queria ir embora. Queria fugir dali. Como desejava ser uma atleta para sair dali tão rápido que ele não teria tempo de notar. Mas não era. Ela não tinha essa força, muito menos a habilidade. Ela ficou parada ali, só pensando. Parecia um pesadelo. Parecia que tinha acabado de ver o mundo se desintegrando. Começou a sentir uma dor no peito. Uma dor antes jamais vivida. O estômago foi embrulhando. A cabeça rodava. Uma tontura cercava todo o seu corpo. Ela estava estática. Mas tinha a sensação de estar gritando. Ela simplesmente não sabia o que fazer. Muito menos no que pensar. Não acreditava no que estava vendo, muito menos no que iria escutar. Olhou em seus olhos e mal podia crer no que ele, assustado, falava. Um olho castanho claro, forte, que antes representava momentos de admiração e felicidade. Agora eram olhos castanhos claro, fortes, que representavam a morte de um sentimento, pelo visto, nunca compartilhado. O respeito. Ele estava ali, diante dela, com toda a coragem do mundo, pronunciando aquelas palavras. Como ele podia fazer isso com ela? Que tipo de ser humano tão insensível era esse? Ele não tinha mãe, avó, ou família? Porque a certo ponto todas estavam passeando em um lugar bem longe e com um nome bem feio. De repente ela percebeu o seu rosto corando. Não eram bochechas rosadas, características da vergonha. Era outro tipo de vergonha. Era vergonha na cara. Começou a sentir o rosto queimar. E a sensação foi descendo até chegar aos pés. Seu corpo inteiro queimava. Não era um calor sensual. Não era um calor de susto. Era raiva, tudo o que ela sentia agora era muita raiva. Pulou no pescoço dele e começou a bater com tanta força contra o seu peito. Queria esmagar o que ele tinha entre as pernas, mas limitou-se a só chutar. Mentira. Ela queria ter feito isso tudo, mas não conseguiu se mover. Parecia uma estátua. Uma estátua com cor. A cor da raiva. Sua respiração ficou ofegante. Pressentiu que ia vomitar. Quando percebeu, seu vômito eram as palavras que saíam de sua boca sem o próprio controle. Marina começou a falar tudo o que sempre calou. Agora ela não teria medo. Não pensaria duas vezes. Falou, falou, falou e sentiu um alívio. Nossa, um alívio nunca imaginado. Aliás, se soubesse que se sentiria tão bem, teria feito isso há muito tempo. Ela tinha certeza, agora ele pensaria cinco vezes antes de fazer e falar aquilo para alguém. Mesmo que não fosse sensível a outro ser, ele aprenderia na marra a respeitar. Jorge trocara de posição. Agora era ele quem parecia perplexo e em choque. Estava ali diante dela. Não conseguia se mover. Não conseguia falar. Não conseguia acreditar no que tinha escutado. Esforçou-se para abrir a boca e balbuciar as palavras que apaziguaram aquela situação. “Me desculpa”. Foi tudo o que ele conseguiu falar. Marina sorriu. Parecia um sorriso de vitória. Seu semblante estava muito mais calmo. Então ela lhe pediu com muito carinho que jamais fizesse aquilo novamente. Ele consentiu com a cabeça. Antes de sair da sala de TV virou-se para ele e falou. “Tudo bem, esse não era o meu chocolate preferido. Vou lá na padaria comprar mais, quer algo meu amor?”

 

Moral: JAMAIS coma o chocolate da sua mulher durante a TPM dela. Marina foi boazinha. Se fosse o chocolate preferido, Jorge poderia estar morto!