Quando o dia ficou nublado

Nós estávamos lá sentados, um de frente para o outro. Eu podia ver em seu olhar, estava abatido e com olheiras. Respirou com força, fez um ar de não tem mais jeito. Pegou a minha mão, levantou os olhos. Nem a lente do óculos conseguia disfarçar a certeza que transbordava daqueles pequenos círculos castanhos no momento em que me disse as palavras mais dolorosas que já ouvi. A minha visão começou a embaçar, a cabeça girava. A garganta fechou, parecia que um nó cessava todos os caminhos pelo qual o ar poderia passar. Suas mãos estavam estáticas, ao contrário das minhas, que tremiam de nervosismo. Eu podia ver a lua por trás dele, era a lua cheia, uma enorme bola amarelada, se destacando em um céu limpo, sem estrelas, que marcaria um dia nublado, igual ao que minha alma representava. Meus ouvidos se fecharam. Eu me sentia flutuando, era como se estivesse fora do meu corpo. Podia ver seus lábios se mexendo e me pedindo para reagir. Nada mais fazia sentido para mim. Em um ímpeto de fuga e desespero larguei tudo naquela mesa de bar e corri o mais rápido que pude em direção a orla. Nem quando estive na minha melhor forma consegui correr tão rápido como naquele momento. Eu senti cada farol piscando contra a minha pele, cada freada ao meu redor. Corri com tanta força e determinação, como se estivesse competindo uma maratona pela minha vida. Foi então que tive a primeira sensação dos pés na areia. Eu fui enfraquecendo e a areia cumpriu com a sua obrigação, foi ponto a ponto alcançando o meu joelho. Eu estava lá de joelhos, sentada em cima dos meus pés, olhando aquele imenso mar escuro. Era assim que eu me sentia: um imenso, profundo e mar escuro. Meu rosto começou a esquentar, e me dei conta que as lágrimas já não obedeciam mais. Elas caíam uma atrás da outra. Em pouco tempo já estava a soluçar. Sentia a brisa do mar resfriando a lágrimas que desciam pela minha face. Meu cabelo voava, junto com a minha sanidade mental. Então o inacreditável aconteceu, senti dois braços firmes me envolvendo, me acolhendo, era Leo, que tentando me acalmar sussurrou em meu ouvido que estaríamos juntos até o fim e que iríamos superar aquela dor. Iríamos superá-la juntos. Ele estava ali. Por mim. Ignorando a dor que a perda do nosso filho também lhe causava.

Por Andréia Homem, ao Som de Angel, Sarah Mclachlan.

 “In the arms of the angel

Fly away from here

 From this dark cold hotel room

 And the endlessness that you feel

 You are pulled from the wreckage

Of your silent reverie

 You’re in the arms of the angel

 Maybe you find some comfort here

 You’re in the arms of the angel

 Maybe you find some comfort here”

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