O Fim

“O dia amanheceu nublado, assim como a sua alma há muito vinha transparecendo. Levantar era uma luta constante, já não tinha mais vontade de comer, beber, se vestir, falar com as pessoas. A única coisa que conseguia lembrar era o adeus recebido com tanta frieza daquele que ela se dedicou durante toda a sua vida. A dor era insuportável e não a deixava tirar dos pensamentos a solução mais viável para tanto sofrimento. Seu peito doía de saudade, amor, frustração e incompreensão. Nada parecia direito, nada estava no lugar. Isso não fazia sentido em sua cabeça, pois sempre viveu controlando tudo, organizando tudo, colocando cada coisa em um lugar aonde pudesse recorrer quando precisasse. A rotina era uma forma de saber lidar com o imprevisível já previsto. Se sabia o que iria acontecer, estaria preparada para solucionar. Mas o que mais amou e desejou fugiu das suas mãos, da sua vida, do seu controle. Ele não a queria mais, não agüentava mais passar um dia sequer com ela. Precisava deixá-la e nem tinha noção do porquê, só queria sair dali. Foi então que simplesmente, depois de 15 anos de casados, ele deixou um bilhete com aquelas palavras, que jamais foram esquecidas: “não está mais dando certo, ADEUS”. Como em uma cena de filme o mundo parecia diminuir a velocidade, girava lentamente diante dos seus olhos, incrédula sentou em cima daquela cama e nunca mais saiu. Já tinha se passado três semanas e ela ainda assim não conseguia acreditar. Tudo o que fez foi por ele, cada minuto de sua vida desperdiçada programando uma vida a dois, que pelo o que parecia tinha esquecido de viver. Sim, não havia mais o que ser feito, nenhuma garrafa de vodka ia diminuir aquela angústia do peito, nenhum surto de raiva, nenhum copo estraçalhando na parede, nada ia por um fim naquela pressão que o seu coração sentia. Não vislumbrando nenhuma saída, nenhum motivo para ainda estar ali, ela decidiu optar pela maior fuga que alguém conseguiria realizar, e se deitou para dormir, porém dessa vez não iria mais acordar. Com um rosto abatido ele destrancou a porta, lembrava de seu sorriso, dos momentos felizes que passaram, até das brigas finalizadas entre lágrimas e beijos, virou a maçaneta e entrou. Colocou as chaves na mesinha da sala, andou pelo corredor, abriu a porta do quarto chamando Clara e arrependido pronunciou um pedido de desculpas “eu estava confuso … Clara? Acorda, Clara, me escuta, acorda!!!” . No silêncio das lágrimas percorrendo a sua face ele então entendeu o peso que as suas palavras tinham, a consequência da falta de diálogo que ela sempre reclamava. Naquele instante compreendeu que mais do que um momento para esfriar a cabeça, mais do que um momento longe, ele precisaria dela para ser feliz por completo. Tarde demais para Marcelo, por ironia do destino quem deu o Adeus final foi a sua maluca, extrovertida e sorridente Clarinha.”

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