Ele

“Meia noite em ponto, uma série que eu acompanho na Tv a cabo estava começando, mas foi nessa hora que resolvi deixar a preguiça de lado e encarar o banho, até porque já não estava mais conseguindo me manter confortável com a pele suada. Entrei no box, virei a torneira da água gelada e na mesma hora lembrei dele. Ele morava em um quarto e sala em Botafogo. Casa de homem sozinho, poucos móveis e utensílios, mas uma Tv com tela grande e muitos peixes, sua verdadeira paixão. A água começou a bater no meu corpo, não estava tão gelada e com certeza o tempo quente tinha uma forte influência nisso. Todos os dias que dormíamos juntos era a mesma rotina, primeiro ele tomava o seu banho e depois era eu. Banho gelado, eu sempre tomava banho gelado, tinha vergonha de ligar a água quente, independente do clima por trás daquelas janelas sem cortinas. Ele não, pelo contrário, podia ter acabado de chegar da academia, pingando de suor, mas o banho era quente, muito quente, que nem ele era por baixo daqueles lençóis. Da mesma forma que acontecia na casa dele eu fiz na minha, me sequei e fui escovar os dentes. Aliás, esse era o momento em que eu suspirava, me olhava no espelho, dava uma checada geral e pensava “lá vamos nós”. Todo dia era dia de sexo. Eu saía do banho e ele já estava deitado, me esperando. Depois de uns cinco minutos desligava a TV, me abraçava na posição de conchinha e com carícias me convidava para mais uma noite de amor. As paredes finas de seu apartamento não permitiam a expressão do prazer que sentíamos, mas gemíamos baixo, um para o outro, nos entrelaçando e vibrando com as sensações mistas que aqueles toques nos proporcionavam. Desde o primeiro dia, só dele me olhar, a pele já arrepiava, eu sempre soube que era dele, antes mesmo de ser. Lembrei dos beijos, da sua mão envolvendo o meu corpo e isso só aumentou a minha saudade, o meu desejo de tê-lo de novo. Essa noite ia ser diferente, escovei os dentes e voltei para o meu quarto. A Tv estava ligada passando a série, a luminária também, a minha cama estava vazia e assim permaneceu. As madrugadas mais vazias e solitárias que já vivi foram todas depois que ele se foi. Nunca mais senti a magia que aquele corpo causava na minha alma, nunca mais fui tão completa em todos os sentidos. Porém não podia permitir que outra pessoa se lambuzasse com o meu doce, com o meu homem. O deixei lá, morto, em cima daquela cama que tanto fui feliz. Ele me olhou pela última vez, um olhar de súplica, de desejo, de arrependimento por ter me magoado. Naquela noite, ao ser olhada por ele, o meu arrepio foi diferente e o gemido dele também. Descanse em paz meu amor!”

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