Recomeço

“Adriana separou uma muda de roupas e as colocou em uma sacola reciclável, aquelas que você paga 2,99 no supermercado. Queria o mais simples possível, levou o essencial para sobreviver, ou seja, umas blusas, umas calças, umas bermudas, calcinhas, meias, um tênis, chinelos e um casaco, o casaco que Carlos tinha esquecido na sua casa. Todo o resto já estava encaixotado com destino escolhido pelo peso de sua consciência, um Orfanato que também cuidava de idosos. Toda a sua casa estava entulhada dentro de caixas e sacos, e tudo o que havia comprado e construído desde que foi morar sozinha aos 22 anos, onze completos no último aniversário, ia ser doado. Ela se sentia suja, culpada, queria deixar o passado no passado e seguir um caminho sem apego as coisas materiais, queria buscar entender quem ela realmente era. Desde que decidiu mudar a trajetória do seu futuro não parava de pensar no quanto ela não sabia sobre si mesmo, não quanto foi capaz de tomar atitudes egoístas que só serviram para magoar todos os que estavam ao seu redor.  Carlos tinha sido o homem que mais gostara, mas o magoou com o seu egoísmo, com a sua insaciável insatisfação pessoal. O seu erro foi projetar nele todas as frustrações de uma vida profissional medíocre, de uma insegurança em tomar decisões sérias, de um aborto espontâneo do qual nunca superou. Claro que o medo dele em não conseguir dar uma vida digna ao bebê, que ela estava esperando, não foi o apoio que ela desejava ao descobrir a gravidez, mas ela precisava reconhecer que ele fez de tudo pelo bebê e até mesmo por ela, no fundo Nana, como Carlos a chamava, sabia o quanto ele os amava. Na verdade o seu estresse, o cigarro, objeto inseparável da sua boca desde os 15 anos, e a sua indisciplinada vida é que colaboraram para a não vinda do ser que mais idolatrou. Sua culpa estava em negar todas as evidências, em buscar fora de casa um consolo que não precisava. Vitor e Luiz não iam consertar o seu coração despedaçado, e a sua cabeça desequilibrada, pelo contrário, ambos só a fizeram adoecer cada vez mais. O homem que amou desde adolescente não conseguiu perdoar sua traição, muito menos Vitor, que achava que ela era solteira e logo se propôs a firmar um compromisso. Dos três, apenas Luiz fez o que ela fez, apenas ele fugiu dos problemas de casa, dos conflitos internos, nos braços de outra pessoa. O saldo dos últimos meses? Dois homens extremamente magoados, uma esposa grávida arrasada com a traição descoberta, e a infelicidade de ter sido a causa de tanto sofrimento. Apagou a luz de casa, pagou o motorista do caminhão de mudanças, trancou a porta e devolveu as chaves para o senhorio. _ Para onde vai Dona Adriana? perguntou ele. Ela não sabia para onde ia, muito menos quanto tempo iria sobreviver sem nada, sabe todas aquelas coisas que julgam serem primordiais e na verdade não passam de futilidades de um império do consumo? Ela estava disposta a viver sem nada, e talvez só desse jeito pudesse se aceitar como era, e aprender a se amar, um amor que nunca foi possível sentir.”

PROCURA-SE

 “_Como eu me definiria em três palavras?, Carla pensou alto. _ Aff, pergunta difícil. Sou linda, simpática e incapaz de ser amada pelos homens. (gargalhou) Acho que isso não serve para uma carta de apresentação né? Seja ela para um emprego, ou para um pretendente a namorado. Tudo bem, sério dessa vez: como eu me definiria? Ah, Honesta, apesar que uma vez peguei emprestada aquela cola branca do escritório e nunca devolvi; Hum, Determinada, mas se eu fosse realmente determinada não teria permitido que aquelas três amigas levassem os três homens que mais me amaram; (suspirou) Talvez Bem Humorada, bom, pelo menos na maior parte do mês, aquela que não envolve cólica, dor de cabeça, sangramentos e rompimentos de namoros.  Ninguém vai me contratar com essa carta de apresentação. Vou morrer sozinha e desempregada, QUE FIM! Bem que a minha tia Cidinha, esposa do irmão mais novo do meu pai, falou para eu casar logo e com um homem bem sucedido, quem nem ela fez. Mas não, EU, aquela menina caridosa, amiga e compreensiva, sempre escolhi as piores opções do mercado, mesmo sendo linda e simpática (não menti nessa parte!). Taí, vou colocar isso: caridosa, sonhadora e burra o suficiente para tomar um pé na bunda dos homens mais idiotas que existem no Rio de Janeiro. _ Concentra Carla, concentra! Vamos lá, _ Honesta, ninguém sentiu falta daquela cola; Determinada, saio todas as terças e quintas na esperança de arrumar um cara legal; Bem Humorada, afinal não é qualquer uma que consegue sorrir para um chefe, mesmo com uma imensa vontade de matá-lo; E, como uma boa cidadã que sou,  busco praticar caridade sempre que posso com OS cariocas. Pronto, agora é só clicar em “me candidatar a vaga” e seja o que Deus quiser. Falando nisso, Deus, por favor, eu suplico, só estou pedindo um bom emprego, um cara bacana e o fim da influência hormonal na minha vida. O que isso  custa para você? É tão pouco, nem estou pedindo a paz mundial. Vai, eu mereço, porque vamos combinar, eu sou linda, simpática, honesta, determinada e caridosa. Dá um forcinha aí!”