Eu tinha que ter parado…

rosa_exclusivaEu tinha que ter parado desde o início.

Tinha que ter parado no primeiro olhar, no primeiro sorriso, no primeiro sintoma de atração física.

Eu tinha que ter parado ali, no primeiro dia, na primeira rosa.

Mas não parei, persisti.

Enganei a mim achando que só iria descobrir se a minha desconfiança era verdade, como quem não quer nada.

Eu tinha que ter parado na primeira conversa, na primeira cantada, na primeira vez que você me acordou com uma música que eu gostava.

Eu não tinha que ter dado o meu telefone, eu não tinha que ter atendido aquelas ligações, respondido aqueles sms`s.

Eu tinha que ter parado bem ali, quando marcamos o primeiro encontro.

Ah, como eu tinha que ter parado no primeiro beijo, no primeiro abraço, no primeiro amasso. Assim eu não sentiria o seu cheiro em meu corpo, não teria minha pele arrepiada cada vez que sua boca chegasse perto do meu pescoço.

Eu tinha que ter parado na primeira transa e encerrar aquele fogo que incendiava os nossos corpos.

Porque eu já sabia que alguém sairia magoado naquela história. Eu sempre soube, eu tinha que ter parado, mas não parei.

Continuei, deixei que mais primeiras vezes acontecessem, deixei que seu sorriso derretesse a minha alma, deixei que sua conversa me fizesse gargalhar, deixei que a sua carência e elogios preenchessem um espaço que deveria estar vazio.

Eu tinha que ter parado no primeiro empecilho, no primeiro obstáculo, na primeira sensação que tinha algo errado.

Eu tinha que ter parado de falar, falar da gente, falar dos meus medos, falar do que gostava, do que queria.

Eu tinha que ter parado com tudo, exatamente naquele momento que senti ciúmes. Naquele momento que soube que você significava mais para mim, do que eu gostaria que significasse.

Eu tinha que ter parado ali, quando comecei a enxergar dúvida na sua voz, na sua atitude, no seu olhar.

Eu tinha que ter parado no primeiro vômito, na primeira dor de barriga, na primeira vez que estar na sua presença me causava uma crise de ansiedade.

Tive tantas oportunidades para parar. E não parei, esgotei todas as minhas possibilidades, toda a minha paciência, todo o meu carinho, toda a minha vontade de esperar que você se encontrasse.

O maior erro que cometi  foi não ter parado. Eu avancei o sinal, arranquei com tudo e acreditei. Acreditei que dessa vez era diferente, que você era diferente, que assim como você se destacou na minha vida, eu não seria só mais uma na sua.

Eu podia, mas não parei por livre e espontânea vontade. Eu quis acreditar em palavras perdidas, em atitudes raras, eu quis acreditar que nada disso me faria mal e na hora que surgisse a necessidade eu sairia de cabeça erguida, sem dor, sem ressentimento, sem lágrimas.

Eu tinha que ter parado desde o início. Mas não parei e de repente tudo acabou. Tudo mudou. E eu fiquei aqui, parada, sem entender. Dessa vez eu não tive outra opção, outra saída de emergência, eu fui obrigada a parar. Então, eu parei, por mim e, principalmente, por você!

Anúncios

Vó Princesa

vó e teteu

Maio é um mês especialmente difícil para mim. Há semanas venho lutando em minha mente sobre colocar ou não para fora tanto sentimento de saudade.

Lidar com a perda nunca foi o meu forte. Só de pensar em não ter mais a pessoa que eu amo perto de mim, mesmo que por algum tempo, sinto uma dor inexplicável no peito.

Sempre fui assim. Lembro de chorar escondida, quando a minha irmã morava com o meu pai e eu com a minha mãe, e eu tinha que ir embora no domingo e deixa-la lá. Acredite, as brigas mais sérias da minha vida foram com ela. E mesmo assim eu não suportava a despedida.

A mesma coisa acontece até hoje quando eu tenho que me despedir da minha tia, ao deixar Curitiba e voltar para o Rio. Viagem que faço todos os anos…

Imagine então o que foi para mim se despedir de uma pessoa que eu não sabia se voltaria a ver? Uma pessoa que faz parte do que eu sou. Uma pessoa que ajudou a me criar e marcou a minha vida com tantas experiências, que é impossível não lembrar dela todos os dias.

Na última vez em que estive com a minha avó, ela já tinha se recuperado de muita coisa, forte como um touro, ela já tinha dito quer adeus, dou com as duas inúmeras vezes para o céu, conquistando a liberdade do CTI e passando os seus últimos dias hospitalares em um quarto particular, esperando a tão sonhada alta.

Foi em uma segunda-feira, e eu tinha ficado o dia todo com ela. Dei o café da manhã, o almoço e o lanche da tarde. Pouco antes de ir embora e me despedir, eu perguntei a ela se ela queria mais alguma coisa e com os olhinhos cansados ela me olhou e disse, quero ir para casa.

Deus concedeu o seu desejo, e uma semana depois ela faleceu. Durante quase quatro meses ela não saiu do hospital. E eu estive boa parte do tempo passando noite e dia tentando aproveitar a minha vó princesa de todas as formas possíveis, sempre de olho se ela ainda estava respirando, se ela ainda estava ali comigo.

Nossa, como eu daria tudo para ouvir ela falar de novo, Oi perereca!

O mês em que homenageamos as mães é, justamente, o mesmo mês que me faz lembrar que as mãos que faziam o melhor queijo com doce do mundo, agora me abençoam do céu, e não estão mais aqui fazendo ponto de cruz nas toalhinhas dos bisnetos.

Ela era uma mulher tão forte, turrona, teimosa, prestativa, amiga, tão vó e bisavó, tão linda e especial. Dona Fernanda cuidou de milhares de pessoas e teve que aprender, no último ano de sua vida a se deixar cuidar pelos outros, mesmo com o rosto contrariado e se recusando a aceitar.

Deus, como ela é importante para mim. E muitas vezes não temos essa noção até perceber o quanto faz falta ouvir as histórias antigas, se aconchegar em seus braços, escutar aqueles pedidos de calma filha, não adianta brigar com a sua mãe/pai/irmã.  A vó conseguiu engordar todos os netos, enlouquecer as suas filhas e ajuda-las quando mais precisavam.

Fefê abriu mão dela tantas vezes, que ela já não sabia ser diferente. Ela é uma pessoa tão única, que deve ser um anjinho rebelde dando trabalho para Deus. Poucos conseguiam dobrar a véia!

Hoje eu a vejo, rápido, as vezes calada, em meus sonhos. E não, não é o suficiente para matar tanta saudade, dizer o quanto eu sou grata a ela e pedir desculpas por todas as malcriações que fiz e oportunidades que perdi de estar ao seu lado. Mas ela sabe que eu me esforço diariamente para emanar os melhores pensamentos e sentimentos direcionados a ela.

Fico triste, pois meus filhos jamais vão ter a bisavó perfeita que meu afilhado mais velho teve, mas me consolo por saber que ela sempre cuidará da nossa família, estando a onde for.

Um dia vozinha você vai me buscar, pegar na minha mão e, fazendo cosquinha na palma dela, perguntar cadê o toucinho que estava aqui… e no final da brincadeira, subir sua mão pelo meu braço até o pescoço falando,  foi por ali por ali por ali, me levando a gargalhada pela milésima vez!

Te amo.