Ela lembrando Dele

Bulging Suitcase on BedMarina pegou o celular e colocou sua playlist no modo randômico para tocar. Era hora de encarar aquele desafio clássico de todas as viagens: arrumar as malas.

Como odiava fazer isso! Espalhava milhares de coisas em cima da cama e quando percebia que nem metade caberia na surrada mala média de rodinhas tinha que desapegar de peça por peça, hidratante, por hidratante.

E lá estava ela na árdua missão “você vai”, “desculpa, você não”, quando a décima sexta música começou a tocar. Logo ela, a trilha sonora que catapultava os pensamentos de Nina direto para Cacá, Then do Brad Paisley.

Segurando a blusa azul de decote nas costas fechou os olhos e lembrou-se de Carlos enfiando sua mão por dentro dela, até alcançar seus seios e puxar com firmeza seu corpo de encontro ao dele. Estavam deitados de conchinha.

A cena passava perfeitamente em sua cabeça, com riqueza de detalhes, porque enquanto ele vazia isso, naquele ambiente mal iluminado pelo abajur, seus lábios sussurravam no ouvido dela o quanto era única, especial e importante na vida dele.

Foi uma das poucas vezes que ele se rendeu a expressar o que sentia por ela. Naquele dia sabia que a estava perdendo e resolveu se entregar. Desejou ter um futuro ao seu lado, pediu que ela sempre o amasse, pois um dia eles ficariam juntos.

O que sentia por ela era forte demais, o amor que faziam era a representação de uma conexão nunca antes vivenciada, era isso que os mantinham apaixonados um pelo outro, mesmo com tantas complicações.

Marina quis cortar aquela lembrança, abriu os olhos repentinamente e, com dificuldade, fechou o zíper da mala abarrotada. Não adiantava mais se apegar as palavras que ele declarara num ato de desespero.

Segundo o personagem Antonio Pastoriza, em uma das obras de Felipe Pena, “só se descobre um amor na iminência de perdê-lo”. E, ela estava certa sobre esta visão do autor. Embora, as atitudes de Cacá não correspondessem com suas frases, muito menos com as de outros escritores. Hoje, Nina tinha ciência que ele jamais faria acontecer um futuro com ela.

E foi por isso que ela resolveu focar no seu momento presente. Na viagem. Na calcinha de renda preta colocada dentro da nécessaire azul cintilante de grife – onde acomodava as calcinhas fio dental e as camisinhas. Queria matar a saudade de Fred. Queria ter certeza que ainda o seduzia com as suas variadas lingeries.

Daqui há 10 horas seu vôo partiria, e era neste futuro próximo que a “gatinha” estava se apegando…

A Saída DELA

LoveMarina estava sentada no sofá com seu fiel, guerreiro e temperamental netbook vermelho no colo. Ela olhava para tela, mas não sabia se estava enxergando alguma coisa, sua cabeça voava pelos milhares de pensamentos que surgiam sem sua prévia aprovação.

Sentia-se suspensa no ar, como se estivesse fora do seu corpo, fora da sua vida. Já tinha algumas semanas que não sabia o que era sorrir, sobrevivia sem esperança, apenas respirava, lentamente, sem a menor pressa de voltar a viver, sem a menor pressa de voltar a encarar o mundo.

Aproveitava esse tempo para escrever. Já estava na hora de tirar aquele livro, tantas vezes abandonado, da pasta Projetos do Desktop. Escrever era uma forma de não se sentir sozinha, Nina fazia isso desde pequena.

No decorrer das semanas pós término com Caca, ela foi curando sua dor, sua ansiedade, sua angústia, porém percebeu que de alguma maneira seu coração foi endurecendo a ponto dela não sentir mais nada, nem tristeza nem alegria.

E foi nesse stand-by da emoção, que encontrou inspiração para exorcizar cada dor e cada lágrima nos versos curtos de uma narrativa irônica. Já que nada podia fazer para alterar sua realidade, decidiu escrever um novo final para a história deles dois.

A fumaça do café inebriava o ambiente, fazendo com que ela alternasse sua atenção entre a página pouco escrita do Word e a falsa energia que nutria seu corpo através daquele aconchegante e agitado líquido preto.

Teclava. Parava. Respirava. Bebia seu café. Era nesse ritmo que passava as horas de cada novo dia. Como estava travada no segundo parágrafo decidiu abrir a caixa de entrada do email.

Promoção, Desconto, Roupas Novas, ia apagando uma por uma daquelas mensagens das Lojas Renner, Submarino, Aquamar. Limpar o email te dava um estranho prazer de controle e foi na empolgação desse ato que quase apagou o email de Fred.

Marina mal podia acreditar até abrir aquele email e ter certeza, era Frederico, um namoro de alguns verões no Sul, que não falava há 2 anos. Ela sorriu.

“Guria, como que tu tá? Tenho pensado muito em ti. Consegui concretizar aquele sonho que tu tanto me apoiou, vou lançar o Jornal da Praia na próxima terça. Será que terei a honra de brindar com a mocinha mais linda que já vi nessas terras frias? Venha para o lançamento, tu é parte desta conquista. Ps.: Floripa nunca mais foi a mesma sem ti.”

“Querido Fred, quanto tempo. Estou caminhando e você? Fico muito feliz em saber do Jornal! Me passe o endereço da pousada mais barata, preciso mesmo de umas férias dessa cidade.”

“O endereço da pousada tu já conhece muito bem, é o da minha casa. Me ligue quando aterrissar. Saudades, beijos do Teu Fred.”

Nina sentiu seu coração acelerar era hora de seguir em frente, era hora de se permitir ser feliz. Uma saída estratégica da inércia que algum tempo a acompanhava.