Cansaço sem mimimi

10422946_330641597140557_3504856186924798794_nSem filtro.

Sem retoque.

Sem ângulo bom.

Sem pose ou bico sexy. Porque eu tô cansada.

Cansada das críticas, cobranças e medos.

Cansada da ansiedade que me faz comer mais e chorar todos os dias.

Cansada de não fazer rabo de cavalo ou o penteado “Princesinha”, porque tenho UMA orelha de abano e outra normal.

Cansada de jogar o cabelo para o lado esquerdo a vida inteira e não usar arcos para tampar essa orelha de abano.

Cansada de não ter peitos e ouvir piada sobre isso. Não me senti sexy o suficiente por conta disso. Não vestir determinadas roupas por isso.

Cansada de ficar em pé, ou usar roupas largas, para esconder minha barriga que é cheia de celulites.

Sim tenho muito mais celulites na barriga do que em qualquer outra parte do corpo.

Cansada demais de me preocupar com tudo isso só para ser a mais magra e “saudável” de uma família de obesos.

Cansada de me sentir horrível e frustrada por ter engordado 10 kg em menos de um ano e agora nenhuma roupa minha caber direito.

Já tem tempo eu abri mão das fotos sem óculos.

Eu uso óculos sim e graças a ele vejo um mundo mais colorido e definido.

Cansada das pessoas me sugerirem usar lentes de contato, pois tenho um rosto tão lindo.

Tô cansada demais de brigar com a comida, com a balança, com o espelho e com a minha autoestima desde que eu tinha uns 9 anos.

Ser magra não me garantiu ser amada pelo cara que amo e nem de ser trocada ou traída.

Ser magra não me garantiu um emprego decente.

Sou bonita e me acho bonita apesar de todos os complexos acima. Odeio musculação e não tenho disciplina (e dinheiro) suficiente para levar a dança tão a sério.

Tô com a vida de cabeça para baixo.

Tendo pesadelos todas as noites e sentindo dores que achei que nessa idade não sentiria mais.

Mas essa sou eu. Cheia de medo. Cheia de dúvidas. Cheia de desafios diários para ultrapassar.

Sou eu. Branca desse jeito. Com quilos a mais. Celulites a mais. E vontade de me sentir mais relaxada, pois o cansaço já me venceu.

Já posso voltar?

Quando olho para trás e percebo a frivolidade dos relacionamentos em que estive nos últimos anos fico desacreditada.

Desacreditada que vale a pena se relacionar de novo.

Desacreditada no homem, no ser humano.

Porque todo esforço foi em vão.

Toda entrega foi reprimida. Descartada.

Tudo, menos valorizada.

Ando com aquela sensação de que só o que é antigo é de verdade, tanto para coisas materiais quanto para as pessoas.

Fusca era um carro de verdade.

Geladeiras, fogões, camas, eram feitas para a vida toda, e não com prazo curto de validade.

Vejo pisos de 1950 antigos, manchados, mas firmes no chão.

Enquanto em casas de pouco mais de cinco anos, os vejo estourando, soltando, quebrando.

Vejo muita gente perdida, falsa, superficial. Que não sabe nem quem é, quanto mais o que quer.

Só não vejo os valores e a sinceridade, a verdadeira personalidade.

O “a toa” é desgastante. Cansativo e cruel.

Mas ninguém se queixa, ou então esquece no dia seguinte.

Porque ninguém se importa.

Próximo da fila! Vai um e volta oito, né?

Só que não.

É como se as pessoas estivessem dopadas.

Vivendo de interesses, de sentimentos e relações efêmeras, palavras ocas.

E eu, eu que tenho uma alma antiga, uma visão ampla e profunda de todas as situações que vivo, fico aqui.

Estática. Com esse vazio, com essa desesperança em relação ao outro.

Em relação ao significado do Amor.

Com essa fome de comida caseira, sede de água da fonte, saturada dos enlatados.

Principalmente aqueles empurrados guela abaixo.