“Como eu posso amar, quando eu tenho medo de cair?”

Lavandas-BibicletaAs primeiras notas de Ave Maria, dedilhadas pela Orquestra, começaram a tomar conta daquele refrescante fim de tarde. Todos estavam sentados em cadeiras de palha no jardim do sítio do vô, meu refúgio de toda a vida.

Contemplavam o início de um lindo pôr de sol que, com tons de vermelho e amarelo, iluminava e aquecia a capela feita de bambu, coberta por um véu branco. O outono dava o tom alaranjado às folhas das árvores e um colorido vintage a paisagem.

Pude reparar pela janela da sala, enquanto me escondia por trás da cortina, que amigos e parentes estavam impacientes à minha espera, com seus lenços de papel e saquinhos de pétalas brancas acomodados no colo.

Nesse momento tomei consciência do que estava prestes a acontecer, então meu nervosismo disparou. Pude sentir meu coração pulsar com força e um suor frio tomar conta das minhas mãos. Meu estômago se revirou e minha cabeça começou a girar. Eu estava no início de uma crise de pânico.

Minha mãe reparou o meu olhar de desespero e uma lágrima escorrer pelo canto dos olhos. Sem hesitar, pediu para que minhas irmãs aguardassem lá fora, ela queria ter uma última conversa com a sua caçulinha, a alegria e o furacão que permeou durante 27 anos a sua vida de mãe solteira.

– Respira fundo minha filha, o que está acontecendo?

– Eu não consigo, eu não posso fazer isso. Tenho muito medo mãe, medo de estragar tudo o que temos.

– Anna casamento não é o fim de uma relação!

– E se não der certo mãe? E se deixarmos de gostar um do outro?

– E se vocês se amarem até o resto de suas vidas, filha? Para de querer controlar o que não tem controle.

– Chama o Rafael aqui mãe. Preciso falar com ele!

Da janela vi o Rafa caminhar por aquele tapete creme, decorado por um corredor de lavandas e flor mosquitinho. Ele estava tão lindo com aquele terno claro, os cabelos negros arrumados para trás e aquele sapatênis salmão que ele tanto adorava, e eu odiava.

– O que houve pentelhinha? Não se sente bem? – Enquanto ele falava, veio em minha direção e segurou o meu rosto com aquelas mãos quentes e grossas. Olhei dentro dos seus olhos amarelos, olhos que desnudavam minha personalidade. Senti o corpo estremecer de alívio.

– Eu estou com medo.

– Medo do que, Nanna?

– Medo da gente não ser feliz. Medo de tudo acabar. Dá gente se odiar.

Rafa sorriu. Ele conhecia minhas inseguranças e meus traumas. Com delicadeza tirou do bolso um origami de papel em forma de coração – sua única habilidade com dobragens, além de um pseudo barquinho. Colocou o coração em minhas mãos e me beijou, exatamente como fez quando ficamos a primeira vez.  No mesmo minuto meu corpo relaxou e meu coração desacelerou, ele sempre acalmava as minhas tempestades.

Ao me abraçar, senti sua barba roçar sob meu rosto, enquanto minhas lágrimas escorriam. Sussurrando em meu ouvido, ele prometeu nunca me fazer odiá-lo e me amar em cada crise. Prometeu me abraçar sempre que eu estivesse triste e segurar minha mão quando eu me sentisse insegura.  

Todo o meu medo cedeu o lugar à certeza e, ao som de A Thousand Years na versão do The Piano Guys, nós fizemos as coisas do nosso jeito e caminhamos pelo corredor florido, juntos e de mãos dadas. Ficamos assim até o final da cerimônia, nos sentindo abençoados pela amizade construída no amor, que unia nossas almas, e atentos as lindas palavras dos anjos: “O Amor é paciente, o Amor é bondoso, não é nada invejoso, arrogante, orgulhoso. Jamais é descortês e nunca interesseiro. Não se irrita nem guarda rancor no coração. Detesta a injustiça, gosta da verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta… Temos agora a Fé, a Esperança e o Amor. Mas, dos três, o mais excelente é o Amor.” Pode beijar sua noiva!

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