A Carta

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Em tempos de Amor Líquido (como Bauman previu em 2004) transgredir o que está na moda e no hábito e tentar resgatar uma tradição há muito deixada de lado é libertador e consciente, embora seja arriscado.

Amar um amor sincero e verdadeiro, um amor que não se descarta, que não se esquece, que permanece adormecido, enraizado em cada ato e fala, é extremamente trabalhoso e árduo. 

Quantas vezes vi minhas mensagens ignoradas ou com respostas postergadas. A emoção e espontaneidade que borrifei sobre elas deu espaço para a indiferença, e na maioria dos casos, mágoa.

Por isso resolvi arriscar.

Papel e caneta na mão, sorriso de canto em cada lembrança feliz, emoções transbordando no peito e através das lágrimas.

Uma letra determinada, em outro momento tremida, torta, traduzindo na união de vogais e consoantes toda uma saudade e vontade de conhecer o outro melhor. Vontade de ser percebida como humana e não só esse personagem que sustento, virtualizada.

Com a facilidade de se comunicar com quem vive muito distante, temos o imediatismo, é só digitar e pressionar o enviar, seja no Whatsapp, pelo Email ou no Messenger do Facebook, isso em qualquer lugar do mundo, tudo pelo  smartphone, antigamente conhecido como celular. 

Porém, geralmente, sentimos um arrependimento imediato, como seria bom voltar atrás e apagar. Reescrever. Refletir. Calar. Não se expor. Era simples, era só não mandar.

Estou sentindo esse arrependimento. Estou me sentindo vulnerável, com a guarda aberta, prestes a ser nocauteada pela tristeza.

Fico aqui contemplando esse envelope branco e já lacrado. Achando que escrevi demais, não no tamanho, mas na intensidade dos sentimentos que eu exprimi.

Uma das vantagens da carta é que até o último segundo você pode desistir, guardar na gaveta para mais tarde. A inspiração vai continuar ali, sem precisar chegar ao outro com tanta velocidade, ou então você pode dar fim, com o simples ato de rasgar. 

amor-liquidoPara que dar-se tanto a alguém que de ti não quer nada?

Será que no papel faz diferença? Ou será que também serei ignorada?

Será que todo esse amor foi criado na minha ilusão? 

Que não haverá correspondência dos meus sentimentos, nem ao menos desta carta?

Posto no correio ou não?

Ainda tenho tempo para decidir, deixarei por conta do destino, ou quem sabe da ocasião. Toda essa transgressão dá medo. Ela só não é maior que o medo de sentir um amor sólido, que, a qualquer momento, pode receber uma intensa e irrecuperável rejeição.

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