Querido Diário, hoje senti culpa e vergonha.

Da onde vem a minha culpa?

Uma das maiores diferenças entre eu e a minha irmã, filha da mesma mãe e do mesmo pai, é que ela não sente culpa.

Ela impõe a sua vontade (aos berros e a força se for necessário), ignorando qualquer consequência e não sente a menor culpa.

Sério, não há um fiapo de culpa naquele Ser.

Eu não.

Eu manifesto um sentimento ou uma vontade e quando a reação é negativa – ou eu julgo ser negativa, quase peço desculpas por ter me manifestado.

Faço igual aos participantes do programa do Raul Gil, pego o meu banquinho e saio de fininho.

Só que eu não bato palmas para ela e nem para mim.

Por quê?

Porque é mais importante descobrir qual é a causa desse sentimento de culpa que me paralisa ao me impor.

Por que me sinto preterida? Humilhada? Como se eu não tivesse o direito de ter uma vontade realizada?

Nos relacionamentos amorosos eu também vivi isso.

Ficava com raiva (e não externava) quando uma terceira pessoa chegava com o pé na porta, se impondo. Mas a raiva aqui vinha da minha falta de coragem em fazer o mesmo.

Tão corajosa para umas coisas (tomar iniciativas, por exemplo), tão covarde para outras.

E aí passei todos os 29 anos da minha vida exercitando a resiliência e a pior delas, a empatia.

Colocava-me no lugar do outro, e deixava para lá.

Para muitas pessoas ser assim me colocou no pedestal da santidade.

Porém, pasmem, foi assim que foram me deixando para lá. Em segundo plano.

Ao não me impor, fui perdendo cada vez mais espaço e a voz.

Perdi a minha voz e em muitas situações a minha identidade.

Fui me isolando, ficando cada vez mais sozinha.

Então me vesti de independente (muito cedo por sinal).

Se os outros me davam um “Não”, eu batalhava – forever alone, pelo meu “Sim”.

Para ser sincera é confortável e consolador fazer isso.

Daria para viver mais uns 29 anos dessa maneira.

Mas quem consegue viver 60 anos sem se relacionar?

E aqui não é só com um homem, é com a família, com os amigos, os colegas de trabalho, o vizinho, o motorista do carro da frente, a senhora na fila do banco.

A caminhada sozinha é muito difícil.

Você sente um vazio constante.

“Ah, mas para o autoconhecimento isso é fundamental”, os pseudos-evoluídos devem estar pensando.

Não, não é.

É preciso silenciar (e filtrar) algumas vozes sim, mas é só através do outro que nos auto-descobrimos.

É como reagimos ao outro que enxergamos o nosso lado mais sombrio.

Ainda pouco, de maneira muito alegre, manifestei a vontade de fazer um churrasco colaborativo com o tema Sweet 30 para comemorar o meu próximo (bem próximo) aniversário.

Mas ouvi a seguinte frase: “está cheia de dinheiro, né. Tá certa!”

Bom, se eu estivesse cheia de dinheiro eu bancava o churrasco, ao contrário de fazer um colaborativo – onde cada um contribui com o que for beber e uma carne.

Só que imediatamente eu senti uma profunda vergonha e culpa.

Quem falou isso para mim é um dos donos da casa onde, depois de morar sozinha por três anos, voltei a morar, o meu padrasto.

E como no momento não estou em um emprego formal, vivo de freelas e bicos, ou seja, eles que me sustentam.

Sabe qual é o maior problema em toda essa história?

Como eu me senti. Na verdade, a necessidade é questionar o porquê eu me senti como eu me senti.

Foi o que falei antes, o auto-descobrimento vem das nossas inúmeras relações diárias.

Sim, eu desisti de comemorar os meus 30 anos.

Não comemorei os 15 e nenhum outro onde eu dependia financeiramente de alguém, agora não será diferente.

Estou certa? Não sei, só sei que ainda não aprendi a me impor e nem tenho tanto autoconhecimento quanto gostaria.

Entretanto, existe outro sentimento que desenvolvi bem – além das devastadoras resiliência e empatia, que é o de gratidão.

Sou grata por eles estarem me sustentando e pela minha mãe acreditar na terapia.

Afinal, graças a isso, semana que vem terei uma enorme oportunidade de refletir bastante no divã.  

Um salve ao Carl Gustav Jung, a Joana de Ângelis e a Cristiane Niero, a terapeuta mais fofa (e tiro, porrada e bomba) que me apresentou a eles.

Com os 30 anos batendo à porta, senti uma urgência incrível em parar, respirar fundo, me concentrar fisicamente, emocionalmente e espiritualmente em mim, para então voltar a seguir em frente, desta vez trilhando o meu próprio caminho.

E que assim sempre seja, amém!

 

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