Eu troco a liberdade pelo teu abraço…

1Falta de ar. Sensação de desmaio. Mãos frias. Coração pegando fogo. Sério, um princípio de incêndio começou a se alastrar dentro do meu peito. Foi assim, com esses delicados sintomas – só que não, que descobri que estava apaixonada por ele.

Logo por ELE. Ele que assim como eu, jurou que não se apaixonaria de novo. Que não queria saber de relacionamentos. Ele que me confessou tantas vezes que ia desacelerar, que precisava de um tempo, relaxar, TUDO, menos namorar.

Sim, foi me sentindo a beira da morte, ou infarto, que descobri estar apaixonada pelo meu melhor amigo. O cara que me viu de conjunto de moletom velho, com pantufas de sapo e cabelo oleoso. O cara para quem eu afirmei com todas as letras ESTOU COM DOR DE BARRIGA. Que testemunhou o cheddar misturado com ketchup se espalhar por toda a boca e adjacências, quando comi, apaixonadamente, um cheeseburger no bar.

Ele que contei todas as merdas que fiz na vida. Todas. Das vergonhosas as mais cabeludas. Inclusive as sexuais. (Ai Meu Deus, ele sabe com quantos caras já transei, tinha esquecido disso!)

Voltando aos sintomas. Eu estava ali, parada, assistindo os dois conversando tão próximos, cheios de sorrisos e olhares, e mãos salientes. Eu estava incrédula.

19927812.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxQue raiva. Que medo. Que desespero. Que vontade de sumir do mundo e me esconder disso. Só que ao invés de guardar para mim tantos conflitos internos, num ímpeto de separá-los gritei: RA- FA-EL! Gritei mesmo. A ponto da festa parar e nos olhar.

_ Oi pentelhinha, diga! Ele me olhou com aquele sorriso lindo e tudo o que pensei foi “ainda tem isso, sou uma pentelhinha para ele”.

_ Preciso ir para casa agora. Não estou bem. Acho que vou vomitar!

Na verdade eu realmente acreditava que iria vomitar. Porque tinha um bolo se formando na minha garganta e o nervosismo fazia meu corpo contrair, tentando expulsar a todo custo aquela coisa entalada.

Mas claro que falei que era por causa do vinho com queijo que tinha comido.

Mas é claro que ele acreditou. Eu geralmente exagerava no álcool e na comida.

E confesso, é claro que eu fiz de tudo para eles nem se despedirem e o tirei de lá o mais rápido possível.

_ Te salvei ein, que garota mais sem sal Rafa! Disse já a caminho de casa, dentro do carro, morrendo de ciúmes e sem ter a mínima noção de como entender todos aqueles sentimentos, que resolveram transformar minha mente em uma festa Rave naquela noite.

_ Ah, não exagera! Como você tá?! Qualquer coisa me fala que paro o carro. Não inventa de vomitar aqui porque lavei essa joça hoje.

_ Tô menos pior.

Rafael estacionou o carro na minha garagem. Desligou o motor e declarou: _ Vou dormir aqui pentelhinha! Vai que você precisa de glicose no meio da madrugada.

catsSorri meio disfarçando a raiva, meio pulando de alegria, meio sem saber como dormir ao lado dele. Não que isso não fosse algo corriqueiro, mas é que dessa vez eu não dormiria com o meu melhor amigo, o cara que eu pouco me importava se estava gorda ou com bafo matinal. Dessa vez eu ia dormir com o cara que eu estava disposta a largar toda a liberdade, recentemente conquistada, e que prezava tanto, só para dormir de conchinha, dentro do abraço dele.  

_ Vem cá Nanna, você está tremendo, já já vai passar.

Mal ele sabia que eu tremia de nervoso. Rafa beijou meus cabelos, me abraçou e adormeci ao som de sua respiração pesada e alta, a respiração que antes me irritava e que agora era a única que me acalmava.

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“Como eu posso amar, quando eu tenho medo de cair?”

Lavandas-BibicletaAs primeiras notas de Ave Maria, dedilhadas pela Orquestra, começaram a tomar conta daquele refrescante fim de tarde. Todos estavam sentados em cadeiras de palha no jardim do sítio do vô, meu refúgio de toda a vida.

Contemplavam o início de um lindo pôr de sol que, com tons de vermelho e amarelo, iluminava e aquecia a capela feita de bambu, coberta por um véu branco. O outono dava o tom alaranjado às folhas das árvores e um colorido vintage a paisagem.

Pude reparar pela janela da sala, enquanto me escondia por trás da cortina, que amigos e parentes estavam impacientes à minha espera, com seus lenços de papel e saquinhos de pétalas brancas acomodados no colo.

Nesse momento tomei consciência do que estava prestes a acontecer, então meu nervosismo disparou. Pude sentir meu coração pulsar com força e um suor frio tomar conta das minhas mãos. Meu estômago se revirou e minha cabeça começou a girar. Eu estava no início de uma crise de pânico.

Minha mãe reparou o meu olhar de desespero e uma lágrima escorrer pelo canto dos olhos. Sem hesitar, pediu para que minhas irmãs aguardassem lá fora, ela queria ter uma última conversa com a sua caçulinha, a alegria e o furacão que permeou durante 27 anos a sua vida de mãe solteira.

– Respira fundo minha filha, o que está acontecendo?

– Eu não consigo, eu não posso fazer isso. Tenho muito medo mãe, medo de estragar tudo o que temos.

– Anna casamento não é o fim de uma relação!

– E se não der certo mãe? E se deixarmos de gostar um do outro?

– E se vocês se amarem até o resto de suas vidas, filha? Para de querer controlar o que não tem controle.

– Chama o Rafael aqui mãe. Preciso falar com ele!

Da janela vi o Rafa caminhar por aquele tapete creme, decorado por um corredor de lavandas e flor mosquitinho. Ele estava tão lindo com aquele terno claro, os cabelos negros arrumados para trás e aquele sapatênis salmão que ele tanto adorava, e eu odiava.

– O que houve pentelhinha? Não se sente bem? – Enquanto ele falava, veio em minha direção e segurou o meu rosto com aquelas mãos quentes e grossas. Olhei dentro dos seus olhos amarelos, olhos que desnudavam minha personalidade. Senti o corpo estremecer de alívio.

– Eu estou com medo.

– Medo do que, Nanna?

– Medo da gente não ser feliz. Medo de tudo acabar. Dá gente se odiar.

Rafa sorriu. Ele conhecia minhas inseguranças e meus traumas. Com delicadeza tirou do bolso um origami de papel em forma de coração – sua única habilidade com dobragens, além de um pseudo barquinho. Colocou o coração em minhas mãos e me beijou, exatamente como fez quando ficamos a primeira vez.  No mesmo minuto meu corpo relaxou e meu coração desacelerou, ele sempre acalmava as minhas tempestades.

Ao me abraçar, senti sua barba roçar sob meu rosto, enquanto minhas lágrimas escorriam. Sussurrando em meu ouvido, ele prometeu nunca me fazer odiá-lo e me amar em cada crise. Prometeu me abraçar sempre que eu estivesse triste e segurar minha mão quando eu me sentisse insegura.  

Todo o meu medo cedeu o lugar à certeza e, ao som de A Thousand Years na versão do The Piano Guys, nós fizemos as coisas do nosso jeito e caminhamos pelo corredor florido, juntos e de mãos dadas. Ficamos assim até o final da cerimônia, nos sentindo abençoados pela amizade construída no amor, que unia nossas almas, e atentos as lindas palavras dos anjos: “O Amor é paciente, o Amor é bondoso, não é nada invejoso, arrogante, orgulhoso. Jamais é descortês e nunca interesseiro. Não se irrita nem guarda rancor no coração. Detesta a injustiça, gosta da verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta… Temos agora a Fé, a Esperança e o Amor. Mas, dos três, o mais excelente é o Amor.” Pode beijar sua noiva!