Três dias antes DAQUELA viagem

redacao jornalO dia parecia normal. Como outro qualquer.

Estava trabalhando, melhor, pesquisando para elaborar uma matéria. O dia é de sol, e faz pouco tempo que consegui me concentrar nas leituras. Lá na rua o rapaz desligou a máquina e terminou de aparar a grama. As crianças da creche ao lado da Redação do Jornal pararam de chorar.

Seria um momento perfeito para imersão e dedicação se não fosse um flash do passado invadindo a minha mente.

Voltei dois anos na cronologia da minha vida, para uma noite de sábado de carnaval.

Voltei para aquele momento, aquele último momento onde juntos, nós dois éramos um só.

sentados amorEra tanta paixão. Tanta felicidade em se encontrar. Tanta saudade e só faziam três dias que não nos víamos.

Houve uma entrega que palavra nenhuma consegue expressar. Foi mais do que sexo. Foi bem mais do que prazer, foi amor.

Segundos de êxtase, que se tornaram segundos de preocupação. Eu estava deitada ao seu lado, ainda forçando o meu corpo a normalizar a respiração. Você sentou na cama, olhou para mim e depois, juntando as mãos na cintura, direcionou o seu olhar para elas. Teve receio em me encarar.

_ Gatinha, preciso te contar uma coisa.

Suspirei fundo, me preparei para o pior, mas não me preparei para ouvir o que você me disse. Estava pronta para levar um pé na bunda. Estava pronta para ouvir o seu Adeus.

_ Fala Caca!

_ Camila está grávida, eu vou ser pai.

Meu corpo sabia. Minha mente sabia. Nada depois dali seria a mesma coisa. Tudo mudaria. Nosso período de paixão e paz ganhou um desafio e toda a minha experiência de vida gritava que eu me daria mal.

Ali começou uma dor. A dor da maturidade, a dor de sentir um amor nascendo em meio a uma confusão. Uma dor que representa o processo de transformação que ainda estou vivenciando.

Eu era sua. Você era meu. Uma nova vida surgia. Um filho que deveria ser nosso, mas que envolvia os tropeços do seu passado.

Era o estágio da crisálida, a lagarta tornando-se borboleta, a nossa paixão se tornando amor.

Uma lágrima escorreu pela minha face, até aterrissar na minha boca. Essa lembrança me deixava confusa. Não sabia se tinha tomado a decisão correta. Não sabia se tinha abandonado a nossa história cedo demais. Tudo o que sei hoje é que suportei a dor até onde consegui, mas depois eu desisti e resolvi ir embora. Resolvi deixar tudo o que vivemos para trás…

Anúncios

O Carrossel não para de girar

carroselPensa na coisa que você mais quer, mas não pode ter. Aquela coisa que faz os seus dias girarem em torno, que, como um imã, te puxa para as lembranças a todo instante.
Você não consegue ter essa coisa, nem vivência-la. Não está ao seu alcance. Então você dá passos de bebê, vive um dia de cada vez, assim como no A.A.. Vai caminhando e tentando conseguir novas experiências, novas coisas, para suprir esse vazio.
Mas a dor, esse buraco no peito, é uma dor forte. Uma dor que sufoca e que te faz desabar diante do cotidiano. Você respira fundo, enxuga as lágrimas e acorda em mais uma manhã lutando para conviver com a incapacidade de realizar o seu maior e mais importante sonho.
“O carrossel não para de girar”, a série Grey’s Anatomy disse em vários episódios da 11ª Temporada. E ela está certa. Não importa quantas perdas, não importa quantas dores, ou quantas frustrações, a vida não para de acontecer e seguir seu caminho.
Fiquei com medo. Medo de nunca ter o que mais quero. Medo de no dia em que eu conquistar esse sonho, ele se torne um pesadelo. Seria possível ser tão feliz e abençoado, com uma vida plena?
Fiquei com medo de ser feliz ao me ver realizando esse desejo. Um medo que embrulha o meu estômago e me faz passar mal.
Tudo é sempre tão sofrido, tão difícil. São batalhas constantes, verdadeiros desafios. Porém, e se depois de tanta provação eu conseguir o que quero? O que vai acontecer?
Toda tormenta é seguida de calmaria. Toda calmaria precede uma tormenta. É um ciclo de altos e baixos dessa passagem na matéria, que vai moldando nosso ser, nos ensinando a sobreviver, mas sem se corromper as futilidades.
Ser plena para mim está relacionada a uma entrega completa. Embora me entregar me remeta as mais fortes dores que já senti. Todo “eu te amo” teve um final triste. Toda abertura de guarda também. Infelizmente não só nos relacionamentos amorosos, mas nas relações familiares, profissionais e sociais também.
Tenho medo de conseguir o que mais quero. E vivo sem conseguir pensar em qualquer outro objetivo, que não seja conquistar essa coisa que mais quero.
Dualidade de vontades, desejos, emoções.
Essa coisa eu não posso comprar. Porque ela é abstrata. Nem coisa, ela é. Só posso conquistar. Só que não parece ser possível tamanha conquista. Na minha cabeça ela é intangível.
Muitas vezes cheguei a acreditar que estava perto, mas hoje vejo que nunca estive. Porque nunca dependeu de mim, nem da minha determinação, foco, paixão.
Incrível como séries, filmes, documentários e livros são capazes de nos fazer experimentar, mesmo que de uma forma fictícia, uma realidade alternativa.
É incrível como eles nos abrem os olhos e nos fazem sentir, nos fazem entrar no lugar do outro e viver suas dores e alegrias. Nos fazem questionar.
Essa 11ª temporada me deixou com medo. Medo de mim e do que que mais quero. Medo de não conseguir e de perder se algum dia eu conseguir. Porque para mim, ganhar, logo em seguida, significou perder.
Medo de estar fugindo, ou me isolando para evitar sentir. Medo de estar sentada no cavalo do carrossel, com a triste certeza de que ele nunca vai parar de rodar. Que somos obrigados a conviver com as adversidades que nos separam e continuar girando, girando, sem nunca interromper esse brinquedo, e nos, verdadeiramente, amar. Tenho medo de sobreviver com a sua ausência e mais medo ainda de ser obrigada a sobreviver sem você.