É que as vezes..

As vezes me faz falta uma companhia sincera.

Sabe aquela que te escuta com interesse, que te enxerga além da maquiagem, que admira a sua coragem e inteligência?

ilustracao-para-materia-de-comportamento-sobre-ciume-1372459053288_615x300As vezes sinto falta de alguém sentindo saudades minhas e ficando feliz com o meu retorno depois de quatro dias de viagem a trabalho.

Faz falta ter uma pessoa me ouvindo contar que passei três horas, animadamente, conversando com um senhor de 77 anos, muito humilde, e seu filho de 42 – um dos 14, no vôo de volta para casa, onde aprendi sobre atum, camarão rosa e o comércio pesqueiro.

E que mesmo que surja uma pontada de ciúmes por eu conversar com homens estranhos, a pessoa entenda que eu sou assim, falante e simpática, e eu que não faço por maldade, nem com outros interesses, senão uma bela amizade.

confianca-1Muitas vezes sinto falta de uma companhia que me peça para parar com o drama, para pausar e respirar, para acreditar que eu serei capaz e que vou dar conta dos desafios do dia-a-dia.

E, claro, que entenda que já me decepcionei muito, por culpa das expectativas que eu mesma criei em relação aos outros, e que por isso tenho muitas dificuldades para me abrir e confiar de novo.

As vezes sinto falta de uma pessoa que perceba o meu sorriso sincero e espontâneo, e a sutileza com que o meu semblante muda quando sinto ciúmes, ou quando gosto muito e tenho medo de tudo acabar, da noite para o dia, como as coisas costumam  acontecer por aqui.

tumblr_inline_o5gzij5jra1qil06u_540Alguém que tenha paciência para me amar nos dias bons e nos ruins. Durante o estresse, a melancolia e a carência dos meus hormônios. Respeitando o meu silêncio e a necessidade de estar só.

Muitas vezes sinto falta de um ouvido amigo para me ouvir e um braço para me aconchegar.

Um abraço que me proteja do mundo, do meu mundo desabando e me faça ter forças para lutar.

São tantos os momentos que eu gostaria de compartilhar e de cuidar. Sinto falta de curtir o hobby do outro e de tentar entender as suas paixões.

Respeito tanto o tempo quanto as necessidades de se estar sozinho, mas sinto falta de poder estender a minha mão e ajudar.

Sinto falta de torcer pelo outro, seja na realização de um sonho, ou na pelada de domingo contra o bairro vizinho.

tumblr_mbqwegdbgf1riout3o1_500_largeSinto muita falta, mesmo, de aprender com o outro. Aprender a andar de skate, de como colocar uma fórmula em uma planilha do Excel, ou apenas conhecer um comediante novo.

São muitos os momentos que sinto falta. Porque quando se vive sozinha, você tem bastante tempo para refletir no silêncio. Você aprende a curtir a sua própria companhia e a se aceitar como é.

Aprende também a desejar preencher os vazios com uma pessoa que passe a somar na sua vida. Uma pessoa que te ensine a amar o próximo como a ti mesmo, a deixar de ser egoísta e ceder, e principalmente, uma pessoa que te ensine a respeitar.

Respeitar as diferenças, compreendendo que elas sempre se completam.

Respeitar que depois de quase 29 anos, hoje eu sei, exatamente, o que tenho que valorizar.

 

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A Carta

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Em tempos de Amor Líquido (como Bauman previu em 2004) transgredir o que está na moda e no hábito e tentar resgatar uma tradição há muito deixada de lado é libertador e consciente, embora seja arriscado.

Amar um amor sincero e verdadeiro, um amor que não se descarta, que não se esquece, que permanece adormecido, enraizado em cada ato e fala, é extremamente trabalhoso e árduo. 

Quantas vezes vi minhas mensagens ignoradas ou com respostas postergadas. A emoção e espontaneidade que borrifei sobre elas deu espaço para a indiferença, e na maioria dos casos, mágoa.

Por isso resolvi arriscar.

Papel e caneta na mão, sorriso de canto em cada lembrança feliz, emoções transbordando no peito e através das lágrimas.

Uma letra determinada, em outro momento tremida, torta, traduzindo na união de vogais e consoantes toda uma saudade e vontade de conhecer o outro melhor. Vontade de ser percebida como humana e não só esse personagem que sustento, virtualizada.

Com a facilidade de se comunicar com quem vive muito distante, temos o imediatismo, é só digitar e pressionar o enviar, seja no Whatsapp, pelo Email ou no Messenger do Facebook, isso em qualquer lugar do mundo, tudo pelo  smartphone, antigamente conhecido como celular. 

Porém, geralmente, sentimos um arrependimento imediato, como seria bom voltar atrás e apagar. Reescrever. Refletir. Calar. Não se expor. Era simples, era só não mandar.

Estou sentindo esse arrependimento. Estou me sentindo vulnerável, com a guarda aberta, prestes a ser nocauteada pela tristeza.

Fico aqui contemplando esse envelope branco e já lacrado. Achando que escrevi demais, não no tamanho, mas na intensidade dos sentimentos que eu exprimi.

Uma das vantagens da carta é que até o último segundo você pode desistir, guardar na gaveta para mais tarde. A inspiração vai continuar ali, sem precisar chegar ao outro com tanta velocidade, ou então você pode dar fim, com o simples ato de rasgar. 

amor-liquidoPara que dar-se tanto a alguém que de ti não quer nada?

Será que no papel faz diferença? Ou será que também serei ignorada?

Será que todo esse amor foi criado na minha ilusão? 

Que não haverá correspondência dos meus sentimentos, nem ao menos desta carta?

Posto no correio ou não?

Ainda tenho tempo para decidir, deixarei por conta do destino, ou quem sabe da ocasião. Toda essa transgressão dá medo. Ela só não é maior que o medo de sentir um amor sólido, que, a qualquer momento, pode receber uma intensa e irrecuperável rejeição.